A aterrissagem forçada do planeta para a economia digital trouxe seus reflexos no maior festival de inovação dos Estados Unidos. Com as limitações impostas pela pandemia, em vez dos tradicionais nove dias de apresentações, rodadas de negócios, aglomerações e festas das ruas de Austin, no Texas, o SXSW se transformou, transferiu seus palcos para o online e enxugou a programação para cinco dias. Mais compacto, o festival pode ter perdido momentaneamente a atmosfera local que o torna único e a possibilidade de interações presenciais, mas ganhou em novas possibilidades de público e alcance para as próximas edições.

 

É uma realidade de transformações constantes que, cedo ou tarde, vem se impondo a todas as indústrias. E isso ficou evidente na programação do próprio SXSW. A primeira edição online do festival teve discussões sobre o cerco às Big Techs, estratégia de liderança e construção de carreira à prova de futuro, privacidade de dados pessoais, planejamento em meio às incertezas crescentes da economia digital e as diferenças que marcam o desenvolvimento dos mercados de tecnologia no Ocidente e na China, entre outros temas. Um dos pontos em comum entre muitas das apresentações, porém, foi a necessidade de aprender a lidar com incertezas e explorar ao máximo uma gama de possibilidades que cresce de forma exponencial à medida que surgem novas tecnologias.

INCERTEZA CERTA

Um exemplo da aceleração do mundo e das oportunidades e riscos que se abrem foi dado na apresentação do relatório 2021 Emerging Tech Trend Report, do Future Today Institute. Para dar conta de tudo que está acontecendo, o Future Today Institute, especializado em modelar e prototipar riscos e oportunidades futuras com base em dados, elaborou este ano não um, mas doze relatórios de tendências. Segundo Amy Webb, fundadora da empresa, o cataclisma de eventos de 2020, levou ao surgimento de quase 500 novas tendências, número 22% superior ao do ano anterior.

Uma das estrelas do primeiro dia do festival, Amy defendeu em sua apresentação que, com a velocidade das transformações em curso, já não vale a pena as empresas investirem tempo e recursos em tentar imaginar como o mundo será em alguns anos para depois se posicionarem. Bem mais efetivo, avalia, é preparar-se para moldar um futuro desejável com base nas diversas possibilidades oferecidas pelas tendências já postas hoje.

16.03.2021_SXSW_Feed_Amy Webb

UM MUNDO DE POSSIBILIDADES

Isso pode significar um mundo onde a privacidade dos dados pessoais seja respeitada, onde haja mais diversidade, a interação entre homens e máquinas seja mais natural e rotinas de trabalho repetitivas sejam substituídas por práticas criativas na resolução de problemas. Uma das coisas que ficou evidente no SXSW é que já há muita gente trabalhando em coisas assim.

Angela Benton, por exemplo, é fundadora e CEO da Streamlytics, uma startup de ciência de dados que analisa o comportamento de usuários de serviços de streaming. Mas de uma forma diferente. A Streamlytics avalia os dados coletados, informa o valor e paga às pessoas que monitora pelas informações recolhidas, que depois de anonimizadas são vendidas ao mercado com o consentimento de seus donos. “Acho que mais companhias de tecnologia vão adotar uma abordagem assim, na medida em que as pessoas forem ficando mais indignadas com o uso abusivo de seus dados”, disse em sua apresentação, no painel Ethical Startups That Don’t Monetize Your Data.

16.03.2021_SXSW_Feed_Angela Benton

Rana el Kaliouby é outro caso de visão ambiciosa e transformadora do mundo. De origem egípcia, Rana passou quase duas décadas estudando inteligência artificial emocional no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), onde ajudou a criar a Affectiva, hoje independente da universidade. O projeto da empresa, onde ocupa o cargo de chief science officer, é desenvolver sistemas de leitura facial para melhorar a comunicação entre homens e máquinas, e mesmo entre humanos, principalmente em ambientes virtuais.

A partir do mapeamento e da leitura das expressões faciais, avalia, as máquinas poderão responder de forma mais empática. E os humanos serão capazes de entender melhor o que os outros estão sentindo, por suas expressões, com o auxílio de ferramentas digitais parecidas. “Acredito que a inteligência artificial emocional vai ser onipresente no relacionamento entre humanos e máquinas. E talvez se torne ainda mais importante ao nos permitir reimaginar a comunicação entre humanos”, afirmou em sua apresentação.

18.03.2021_SXSW_Feed_Rana El Kaliouby

Em um mundo mais automatizado, a AI talvez tenha papel maior até mesmo em atividades características dos humanos, como às relacionadas à criação, avalia Scott Belsky, chief product officer e vice-presidente executivo da Creative Cloud Adobe. A vantagem, no caso, seria a maior liberdade em relação a tarefas mecânicas e repetitivas e a possibilidade de descobertas estéticas improváveis. “Talvez no futuro nossos empregos serão mantidos pela capacidade de usar a criatividade para engajar as pessoas, para passar uma mensagem”, afirma. “Talvez, os algoritmos nos apresentem coisas inesperadas, que não veríamos de outra forma”.

17.03.2021_SXSW_Feed_Scott Belsky

O RISCO DA DISTOPIA

O risco de as empresas e a sociedade se deixarem levar pelas circunstâncias, adotando uma postura apenas reativa, é a construção de um mundo distópico. Para Yuval Noah Harari, historiador autor de Sapiens e Homo Deus, a bioengenharia já é hoje uma ameaça maior à sobrevivência da espécie humana que as guerras nucleares e o aquecimento global. Isso porque, quanto à bioengenharia, não há consenso mundial em relação a que caminho seguir.

“Se alguém for capaz de criar soldados mais disciplinados, ou cientistas mais capazes, ninguém vai querer ficar para trás. Não vejo condições de desacelerar esse movimento a não ser que se consiga que americanos, russos, chineses e europeus cheguem a um acordo”, disse Harari, durante sua participação no painel Why Do We Fear Innovation.

Outro problema atual sério, segundo o historiador Israelense, é a desinformação que circula principalmente através de grandes redes sociais, como Twitter, YouTube e Facebook.

17.03.2021_SXSW_Feed_Yuval Noah Harani

O tema ganhou tal relevância após a invasão do Congresso Americano, em janeiro, que os esforços em diferentes partes do mundo para enquadrar as big techs e reduzir o poder que vêm acumulando em ritmo exponencial ganharam urgência. Mas, para isso, assim como na questão climática, será preciso um esforço global coordenado, que já começa a se esboçar, segundo a senadora americana Amy Klobuchar e Margarethe Vestager, vice-presidente executiva da Comissão Europeia, que conversaram durante o painel Forging a New Social Contract for Big Tech. “Você vê como eles estão sendo agressivos na Austrália, e nos seus marketplaces. E continuam a adquirir companhias”, disse a parlamentar americana. “Sabemos que não será fácil”.

19.03.2021_SXSW_Feed_Margarethe Vestager

UM PASSO À FRENTE

Vencer a queda de braço com as big techs será difícil. Mas não impossível, como mostra a história da Square, apresentada no SXSW por um de seus fundadores, Jim McKelvey. A Square nasceu de um problema que McKelvey teve ao tentar vender US$ 2 mil em peças de vidro de seu ateliê. Perdeu o negócio por não ter uma máquina de cartão de crédito para receber. Como muitos pequenos comerciantes, McKelvey não queria pagar as tarifas cobradas pelo mercado. Foi então que, a partir de conversas com o amigo Jack Dorsey, fundador do Twitter, criou um dispositivo que, acoplado ao celular, permitia a qualquer um receber com pagamentos de cartões de crédito a um custo muito mais baixo. Com o rápido sucesso da empresa, em 2014, a Amazon criou um dispositivo similar e tentou entrar no mercado, com um preço 30% mais baixo. Mas não conseguiu se estabelecer.

“Não imaginamos que iríamos fazer uma companhia bilionária. Nossa intenção era resolver um problema pequeno e bastante específico”, conta. No caso da Square, afirma, os problemas foram sendo elencados e resolvidos uma após o outro, e de forma rápida. Com isso, o diferencial do produto final deixou rapidamente de ser o dispositivo, o que dificultou o avanço da Amazon. “Copiar, normalmente é a melhor forma de resolver um problema. Mas o fato é que você nunca vai construir um negócio importante, significativo, se não fizer algo único”, disse.

16.03.2021_SXSW_Feed_Jim MCKelvey

Assim como no caso das big techs, a discussão sobre equilíbrio de forças no mundo corporativo avança rápido também no campo da diversidade. Na avaliação de Dipanjan Chatterjee, principal analista e vice-presidente da Forrester, uma das maiores consultorias dos Estados Unidos, o ano de 2020 foi um marco nesse sentido. Em boa medida, o motivo foram as tensões geradas pela morte de George Floyd, assassinado por policiais no Estado de Minnesota. O crime deu novo impulso ao movimento Black Lives Matter. “Assistimos ao movimento de mudança para uma consciência coletiva”, afirmou Chatterjee.

E nesse movimento, para Chatterjee, há espaço para que as empresas assumam um protagonismo nas transformações sociais que, no passado, era das instituições. “As instituições estão desmoronando. Na Dinamarca, os jovens não acreditam mais na religião; no Japão, a solidão se tornou uma praga. Nesse vácuo, as marcas ocupam espaço e ganham legitimidade na cultura popular”, afirma. “Em 35 países, 50% da população discorda ou não tem certeza de que existam apenas dois gêneros, masculino e feminino. Nos EUA, 60% acreditam que as marcas devam se levantar em defesa da justiça racial”.

16.03.2021_SXSW_Feed_Dipanjan Chatterjee

NOVA LIDERANÇA

Diante de transformações constantes e cada vez mais rápidas, uma das poucas certezas é da de que as lideranças terão que ter uma postura diferente da tradicional para não se tornarem rapidamente obsoletas. Na visão da estrategista de liderança Ann Hiatt, que trabalhou com Jeff Bezos, da Amazon, no início da empresa, e passou outros doze anos no Google, ter uma carreira à prova de futuro vai significar fazer consistentemente coisas novas o tempo todo.

“Isso pode ser meio intimidador, mas é mais uma barreira mental do que qualquer outra coisa”, afirma. “Se você realmente quer estabelecer uma reputação de ser alguém que faz as coisas acontecerem; que aceita os riscos certos, que embarca em projetos e que desafia o status quo, não para si mesmo, mas pelo grupo; de que é consistentemente quem eleva o nível do jogo e dá a todos a coragem para assumir riscos calculados, não se torne complacente”, diz Ann.

O mundo, segundo o SXSW 2021, não será.

18.03.2021_SXSW_Feed_Andy Ann Hiatt

Texto e edição: Dubes Sônego

Design: Rodrigo Hamam 

Editor-chefe: Arnaldo Comin

Publisher: Ricardo Natale

Imagens: Reprodução e SXSW