Mais de 500 startups, grandes grupos empresariais locais que têm cada vez mais apostado em inovação aberta e um expressivo incremento e fortalecimento das comunidades de fomento à inovação. Esses são os principais fatores que vêm ajudando o Nordeste a se estabelecer como um importante pólo de inovação fora do eixo Rio-São Paulo.

Segundo levantamento da Associação Brasileira de Startups (Abstartups), Bahia, Ceará e Pernambuco têm a maior concentração de startups da região. Mas as comunidades de fomento estão presentes em todos os Estados, até mesmo fora das grandes cidades, e mantêm estreita relação com grandes grupos locais. Entre os exemplos de empresas que investem ativamente em inovação aberta na região, estão nomes como Hapvida, Instituto do Câncer do Ceará, Baterias Moura, Pague Menos e Grupo Mateus.

A maior parte das startups da região ainda não recebeu nenhum tipo de investimento (77%), nem foi acelerada ou incubada (55%), já que em sua maioria estão em early stage. Mas o aumento do interesse das aceleradoras na região cresce consistentemente.

 

Há bons exemplos que servem como inspiração para o mercado. A Arco Educação foi o primeiro Unicórnio nordestino, revelando o potencial da região. Não por acaso, educação, saúde, SAAS e fintechs são os segmentos mais promissores e os com maior movimentação.

Perfil predominante

das startups do Nordeste

Fonte: Abstartups

Ecossistema de inovação em ebulição

 

Quando se fala de inovação no Nordeste, a referência nacional é o Porto Digital de Recife. O parque tecnológico da capital pernambucana abriga hoje cerca de 300 empresas, três incubadoras, duas aceleradoras e seis institutos de pesquisa, faturando atualmente R$ 2,8 bilhões com desenvolvimento de software. Deste total, R$ 1,5 bilhão são revertidos em salários que ficam na cidade e alimentam a economia local.

 

Mas o Porto Digital não está sozinho. O número de comunidades que interconectam startups, aceleradoras e investidores na região Nordeste, como o Hub Salvador, o Jerimum Valley (Natal), Rapadura Valley (Fortaleza), Sururu Valley (Maceió) e Caju Valley (Aracajú), é cada vez maior e, os ecossistemas, mais efervescentes.

 

Para impulsionar as startups early stage, aceleradoras têm intensificado sua atuação na região. Um exemplo é o Grupo Rede+, que atua em Salvador e Aracajú, foi pioneiro na Bahia e já acelerou mais de 220 startups, conectando-as com mais de 20 ecossistemas internacionais. “Levamos doze startups para seis países, em três continentes”, conta o CEO e fundador do Grupo Rede+, Rodrigo Paolilo.

A situação, no entanto, poderia ser ainda melhor, avalia o empresário, caso maior número de grandes empresas baianas apostassem em parcerias com o ecossistema local, o mais rico em quantidade de startups na região Nordeste do país. “Não existem muitas empresas na Bahia que tenham a cultura de investimento de risco”, afirma Paolilo. “Outras acabam levando seu programa de inovação para São Paulo, como o grupo baiano Braskem”, diz, acrescentando que é uma prática que o Grupo Rede+ precisa trabalhar cada vez mais para reverter.

 

Rodrigo Paolilo

CEO e fundador do Grupo Rede+

A situação, no entanto, poderia ser ainda melhor, avalia o empresário, caso maior número de grandes empresas baianas apostassem em parcerias com o ecossistema local, o mais rico em quantidade de startups na região Nordeste do país. “Não existem muitas empresas na Bahia que tenham a cultura de investimento de risco”, afirma Paolilo. “Outras acabam levando seu programa de inovação para São Paulo, como o grupo baiano Braskem”, diz, acrescentando que é uma prática que o Grupo precisa trabalhar cada vez mais para reverter.

 

Rodrigo Paolilo

CEO e fundador do Grupo Rede+

Grandes grupos

têm papel catalisador

 

A participação de grupos empresariais locais no ecossistema de inovação é vista como essencial para alavancar o crescimento na região. Mas, como mostra o exemplo de Salvador, a aproximação entre velha e nova economia é mais comum em alguns Estados do que em outros.

 

Em Pernambuco, parcerias entre startups e empresas, ou mesmo com o poder público, vêm funcionando bem e ganhando corpo. A Baterias Moura e o Complexo de Suape são dois exemplos ativos, além do Ministério Público de Pernambuco, que abriu seu laboratório de inovação no Porto Digital. No Maranhão, acontece o mesmo. Por lá, há exemplos como o do Grupo Mateus, de varejo e atacado.

 

No Ceará, o Grupo Pague Menos e a Hapvida também têm  investimentos consistentes e estruturados em inovação. “Nosso investimento está calcado em três pilares: inovação com os colaboradores internos, inovação externa e incubação”, diz Barna Eross, vice-presidente de digital e inovação do sistema Hapvida Saúde.

O Programa Explora é uma das iniciativas da empresa, que lançou cinco desafios de negócio para startups em 2020 e recebeu mais de 200 inscrições a nível nacional. Atualmente, essas startups estão em fase de implementação das provas de conceito (POCs) desenvolvidas.

 

Um dos resultados concretos dos investimentos em inovação na empresa é a plataforma de teleconsultas, criada pela Maida, a healthtech do sistema Hapvida, especializada em soluções envolvendo AI. Lançada durante a pandemia, a plataforma permite que a companhia faça hoje mais de 80 mil atendimentos remotos por mês.

“Entendemos que é a inovação que vai permitir que as empresas continuem a ser relevantes para seus clientes. Para as que querem iniciar esse movimento, recomendo que trabalhem em cooperação com o poder público ou privado, compartilhando os riscos e necessidades de investimento”, afirma Barna.

 

Barna Eross

Vice-presidente de digital e inovação do sistema Hapvida Saúde

“Entendemos que é a inovação que vai permitir que as empresas continuem a ser relevantes para seus clientes. Para as que querem iniciar esse movimento, recomendo que trabalhem em cooperação com o poder público ou privado, compartilhando os riscos e necessidades de investimento”, afirma Barna.

Barna Eross

Vice-presidente de digital e inovação do sistema Hapvida Saúde

Educação e mão de obra,

os maiores desafios

 

Uma das principais barreiras para o aprofundamento das relações entre grandes empresas e startups na região é a escassez de mão de obra especializada em tecnologia e inovação. Se antes da pandemia o problema já existia, com a necessidade de transformação digital imposta pela quarentena, o quadro de falta de capital humano se agravou.

 

Mesmo Recife, a cidade brasileira com a maior quantidade de PhDs em ciências da computação, e a que tem a maior quantidade de estudantes de tecnologia per capita, carece de mão de obra de qualidade. Atualmente, o Porto Digital tem 1,5 mil vagas abertas para profissionais seniores e não consegue preenchê-las.

Para minimizar o impacto, uma das soluções encontradas por aceleradoras, empresas e pólos de inovação, tem sido buscar parcerias com o poder público. O Porto Digital, por exemplo, criou o Programa Embarque Digital, em parceria com a prefeitura de Recife. O programa custeia a formação de bons alunos vindos das escolas públicas em análise de sistemas em universidades privadas. A Hapvida, no Ceará, também estabeleceu com o Governo do Estado um programa de cooperação para atrair jovens talentos para a empresa.

 

Mas, na avaliação do presidente do Porto Digital, Pierre Lucena, para solucionar o problema da falta de mão de obra seriam necessárias iniciativas mais amplas, estruturadas e de longo prazo. Para Lucena, o que falta ao Brasil é um programa nacional, com linhas de fomento governamental para a inovação de base e a educação empreendedora, e um projeto nacional de qualificação de profissionais de tecnologia.

“Se não há capital humano em larga escala e de boa qualidade, o custo de oportunidade do trabalho sobe muito e o desenvolvedor inicial deixa de empreender para ir para o mercado de trabalho. Empreendimento de base tecnológica no Brasil passou a ser um programa de classe média alta”, afirma.

 

Pierre Lucena

Presidente do Porto Digital

“Se não há capital humano em larga escala e de boa qualidade, o custo de oportunidade do trabalho sobe muito e o desenvolvedor inicial deixa de empreender para ir para o mercado de trabalho. Empreendimento de base tecnológica no Brasil passou a ser um programa de classe média alta”, afirma.

Pierre Lucena

Presidente do Porto Digital

Impactos da pandemia no ecossistema

 

Durante a pandemia foram dois os maiores impactos no ecossistema de inovação do Nordeste: capital humano e crise econômica. A transição dos trabalhadores para o home office permitiu que empresas de outros estados, e até multinacionais, contratassem desenvolvedores a salários mais competitivos, por vezes pagos em dólar. “Só a Alemanha tem 400 mil vagas em aberto para desenvolvedores de software. E um analista pleno aqui ganha meio salário mínimo alemão”, compara Lucena.

Os impactos da Covid-19

SOBRE O FATURAMENTO DAS STARTUPS:

Fonte: Abstartups

50,1%

50,1%

Permanece o mesmo

15,9%

15,9%

Redução de mais de 50%

6,5%

6,5%

Redução de 50%

6,4%

6,4%

Aumento de 50% ou mais

5,9%

5,9%

Redução de 30%

5,2%

5,2%

Redução de 10%

5,2%

5,2%

Aumento de 10%

4,8%

4,8%

Aumento de 30%

As empresas, de modo geral, também direcionaram seu foco para os problemas internos inerentes à crise econômica e reduziram o investimento de risco, aumentando a concentração de negócios em grandes empresas. As escolas e corporações que precisaram de ferramentas on-line para fazer reuniões e aulas, por exemplo, foram buscá-las em grandes players já estruturados. “Não dá tempo de testar em momentos de crise”, afirma o presidente do Porto Digital.

 

De acordo com o Mapeamento de Comunidades da Abstartups, que considerou também os efeitos da pandemia, 33,5% das startups da região tiveram redução na receita em 2020, sendo que em 22,5% dos casos a queda foi igual (6,5%) ou superior (15,9%) a 50% do faturamento.

 

Por outro lado, apesar dos problemas, 56,5% das startups conseguiram manter (50,1%) ou aumentar a receita (6,4%), em 2020. O que sugere que, passados esses tempos incertos, o processo de consolidação do Nordeste como nova fronteira da inovação no Brasil seguirá adiante.

Se interessou pelo tema?

 

Clique aqui e assista também a entrevista recente do Experience Club com Fred Arruda, CEO do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR).

Texto: Monica Miglio Pedrosa

Design: Rodrigo Hamam 

Editor-chefe: Arnaldo Comin

Publisher: Ricardo Natale

Imagens: StockPhotos