Com o propósito de alinhar o desempenho do negócio às melhores práticas corporativas, um número crescente de empresas atrela o pagamento de bônus de executivos ao cumprimento de metas de sustentabilidade.

As práticas ESG alcançaram uma das partes mais sensíveis dos executivos – o bolso.

Isso acontece porque um número cada vez maior de empresas está atrelando o pagamento dos bônus de seus líderes ao cumprimento de metas ambientais, sociais e de governança corporativa.

 

A utilização dessa espécie de indicadores – que podem variar da simples redução do consumo de plástico no cafezinho à ampliação do número de mulheres em posições de liderança -, vem se desenhando como uma tendência.

 

Algo natural num momento em que termos como capitalismo consciente e impacto social ganham espaço no universo corporativo.

No entanto, segundo especialistas ouvidos pelo Experience Club, o número de empresas que adota a prática ainda é relativamente pequeno. Estão nesse grupo de vanguarda grandes companhias, multinacionais, organizações com ações negociadas em Bolsas de Valores e aquelas que buscam a certificação para atuar como Empresa B.

Um ponto importante é que não há receita de bolo. Cada empresa deve fazer sua lição de casa, que começa por elaborar um bom diagnóstico, para mapear áreas críticas e, a partir daí, estabelecer métricas factíveis e um plano de execução.

Quem está no jogo

 

Há empresas que incluem apenas a alta liderança nesse jogo e outras cujo time todo – do presidente ao chão de fábrica -, está sujeito às regras para fazer jus à remuneração variável no final do exercício.   

A EDP Brasil se encaixa nesse segundo grupo.

Desde 2016, todos os mais de três mil funcionários da empresa de energia, alto escalão incluído, têm de cumprir critérios ESG e não apenas financeiros para receber essa fatia do pagamento.

Para sensibilizar toda a equipe de colaboradores e traçar rotas para que os indicadores fizessem parte do dia a dia e fossem incorporados às tarefas cotidianas, a companhia criou um programa – o Metas com propósitos. Ele foi a porta de entrada para colocar todos na mesma página e mostrar a importância do conjunto de práticas ESG nas tarefas de cada um para os resultados da companhia.

“O conceito era ter uma visão holística, que não olha apenas o financeiro e o acionista. Vê pessoas, colaboradores, parceiros, demais stakeholders, meio ambiente, sociedade e o negócio como um todo.

A partir desse olhar, foi possível desenhar metas específicas para as diferentes áreas”, explica Dominic Schmal, gestor de Sustentabilidade da EDP no Brasil.

Entre as metas que têm de ser alcançadas pela alta liderança estão aumentar o número de mulheres e minorias no quadro da companhia, não ter acidentes ambientais e ampliar a capacitação ESG para fornecedores.

No balanço entre aspectos positivos e desafios trazidos à tona pela prática, Schmal contabiliza como ganho permanente o fato de a empresa ser capaz de medir e tornar tangível aspectos que, antes, poderiam parecer distantes do negócio.

Isso dá ferramentas para que a direção consiga se comunicar adequadamente com todas as áreas de negócio, um ponto que requer atenção permanente.

“Isso de financeiro e não financeiro é um erro. No fim, tudo, em algum momento, entra na dimensão financeira”, observa.

 

Dominic Schmal

Pragmatismo sustentável

 

Traçar objetivos claros e prazos para alcançá-los é uma receita consagrada. Pois foi essa a rota que a Movida resolveu trilhar quando decidiu que era o momento de adotar indicadores ESG na remuneração variável de seus altos executivos.

As metas a serem perseguidas eram apenas duas, mas ambiciosas: integrar o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), da B3, e certificar-se como Empresa B entre 2019 e 2020.

Para tornar possíveis esses objetivos, a companhia criou um comitê de sustentabilidade, em 2018.

“Atrelar a remuneração às metas ESG foi, para nós, um caminho natural, pois atuamos de forma muito pragmática e essa prática tem completa aderência às pretensões de estar no ISE e ser uma empresa B”, afirma Edmar Lopes Neto, CFO da Movida.

Ele avalia que o maior desafio é calibrar as metas a serem atingidas de tal forma que tenham impacto, sejam entregues e não sejam percebidas pelos investidores como mera ação de marketing.

“Para uma empresa que atua no varejo, como a nossa, não é raro que o consumidor se torne também um futuro acionista, e nos cobre sobre a efetividade das metas anunciadas.”

 

Edmar Lopes Neto

Subindo a régua

 

Na ISA CTEEP, a lógica de vincular os bônus dos executivos às métricas ESG vem ganhando espaço em um cenário no qual o negócio da companhia é diretamente impactado e desafiado, em pleno processo de transição energética global.

A empresa de transmissão ampliou recentemente o escopo de metas a serem perseguidas. A partir deste ano, incorporou como objetivo a redução de dois milhões de toneladas de CO2 até 2030.

A essas métricas se juntam outras que já faziam parte do plano, como reduzir a frequência de acidentes, garantir o avanço físico dos projetos e ampliar a diversidade do quadro de funcionários. O uso de tecnologia e inovação são os grandes aliados nessa jornada.

São sujeitos ao cumprimento diretores, gerentes e coordenadores, que compõem o grupo de liderança da companhia.

“Adotamos entre os objetivos da companhia e dos executivos metas que nos permitem ser cada vez mais eficientes. É preciso otimizar o uso de água, energia elétrica e gases de efeito estufa sem perda econômica.

Não podemos falar em desempenho do negócio sem falar em desempenho social, ambiental e em governança para todas as partes interessadas”, afirma Rui Chammas, CEO da ISA CTEEP

 

Rui Chammas

Gerando impacto

 

Habituados a desenhar planos de remuneração variável atrelados às práticas ESG, consultores recomendam dois cuidados principais: incluir indicadores que de fato sejam relevantes para o negócio e impactem os stakeholders e atenção para não anunciar mais do que se pode fazer, incorrendo no chamado greenwashing.

Para Mauricio Colombari, sócio da PwC Brasil, o sucesso da escolha está diretamente ligado à convicção da alta administração da companhia. “E, para que exista essa segurança, é preciso que os dados, metas e métricas, sobretudo de longo prazo, sejam robustos e estejam alinhados à operação e à estratégia. Ou pode ser algo prematuro”, alerta.

 

Mauricio Colombari

Já Jefferson Kyohara, da ICTS Protiviti, ressalta a importância de a companhia ter uma área de Sustentabilidade bem estruturada.

“Muitas empresas têm iniciativas pontuais e específicas, seja em emissão de carbono ou diversidade, e acham que contam com métricas ESG. É um erro. Adotar práticas ESG significa sair do superficial e estruturar ações que incorporem as três dimensões”, exemplifica.

 

Jefferson Kyohara

Texto: Luciano Feltrin

Design: Rodrigo Hamam 

Editor-chefe: Arnaldo Comin

Publisher: Ricardo Natale

Imagens: StockPhotos 

Patrocínio: Ambipar