O ESG está na moda. Literalmente. O segmento, que movimenta US$ 2,4 trilhões, gera mais de 300 milhões de postos de trabalho em sua cadeia ao redor do mundo e representa 3% do PIB global, entrou numa nova fase.

 

O momento é de olhar não apenas os números positivos e ganhos financeiros da atividade. Mas de também observar – e tomar ações efetivas – que signifiquem, na prática, tornar o processo de produção de uma peça de roupa sustentável do início ao fim. Não é algo nada simples. Nem rápido.

 

O desafio fica mais claro quando se faz um mergulho nessa indústria – responsável por 8% da emissão de gases poluentes na atmosfera, consumidora de 79 bilhões de litros cúbicos de água anualmente e que descarta o equivalente a 50 bilhões de garrafas plásticas no oceano durante o processo de lavagem de tecidos sintéticos.

Isso, claro, sem contar um dos temas mais sensíveis que envolve toda a longa cadeia de milhares de fornecedores: as relações de trabalho.

 

Ao longo das últimas décadas, diversas grandes marcas foram acusadas de violar Direitos Humanos por contratar, em geral ao longo da terceirização do processo fabril, mão de obra em condições análogas à escravidão.

 

“A revisão da forma de trabalho é um chamado urgente

para o setor. Além das relações informais, com remuneração aquém das possibilidades de sobrevivência e poucos ou inexistentes cuidados com saúde e segurança do trabalho, principalmente na fase de manufatura, mas também em alguns segmentos da produção de materiais, há um grande contingente de mão de obra pouco ou nada especializada dependente dessa atividade. Esses trabalhadores podem ser fortemente atingidos se a resolução das questões trabalhistas for trocada exclusivamente por tecnologia ou por realocação do processo”, afirma a gestora de recursos JGP, em carta na qual mapeia o setor de moda em sua jornada rumo à adoção de práticas ambientais, sustentáveis e de governança corporativa.

Em relatório recente, a XP avalia que, no que se refere à questão ambiental, a sensibilidade do setor está concentrada no fato de que o varejo de vestuário depende bastante de algodão e couro em seu processo produtivo.

 

“Esses materiais estão associados a severos impactos ambientais ligados ao alto consumo de água e pesticidas ou potencial desmatamento, tornando essa uma questão chave dentro do setor. De acordo com o MSCI, na indústria têxtil, de vestuário e artigos de luxo, 76% das empresas compram couro, enquanto 89% usam algodão em seus produtos. Dessa forma, as empresas podem enfrentar riscos de danos à reputação. E, à medida que a sociedade e o mercado em geral focam cada vez mais em empresas sustentáveis, acreditamos que o abastecimento sustentável pode se tornar significativamente mais importante para o crescimento e o risco de reputação”, pondera a analista Marcella Ungaretti.

Brechós: quando o velho vira novidade

 

Para reduzir a dependência dessas matérias-primas e eliminar práticas nocivas de negócio, que em nada lembram o espírito do ESG, um movimento vem ganhando corpo ao longo dos últimos anos.

 

O impulso – não sem uma dose de pressão -, foi dado com o crescente interesse de investidores por direcionar recursos para ativos no setor, ainda muito pulverizado no Brasil.

 

Isso quer dizer, entre outras coisas, que há ainda muito espaço para um movimento de consolidação setorial.

 

Significa, na lógica do ecossistema de investimentos, que grandes empresas do segmento, listadas em Bolsa ou não, terão dinheiro e apetite para ir às compras e adquirir negócios que possam ajudá-las a desenvolver ou aprimorar práticas ESG.

Nesse sentido, algo que tem acontecido com cada vez mais frequência é a aposta no fortalecimento da economia circular. No caso da indústria da moda, isso já pode ser visto, com grandes varejistas adquirindo brechós online.

 

É uma tendência, num mercado que parece ter reconhecido que é preciso ampliar a vida útil e a comercialização das peças de segunda mão, já que seu descarte tem altos custos para o meio ambiente.

 

Somente neste ano, a Renner adquiriu a Repassa, e a Reserva, parte do Grupo Arezzo, fechou a compra da Troc. 

E outras operações desse tipo estão no forno.

 

“Quando comecei a vender bolsas usadas, diziam que era louca. Um tempo depois, entenderam que esse tipo de negócio podia dar certo. Hoje, todo mundo quer virar meu sócio”, diz Mila Silbermann, fundadora da Inffino Second Hand Luxury.

 

Fundado há pouco mais de uma década, o brechó – que vende peças de marcas famosas, como Chanel, Dior e Louis Vuitton, viu seu faturamento quintuplicar nos últimos quatro anos, para R$ 2,5 milhões, e passou a ser alvo de fundos de private equity e Family offices.

Visão mais ampla

 

Pensar sustentabilidade e geração de impactos positivos no segmento de moda e vestuário significa buscar o desenvolvimento de matérias-primas de menor impacto e também vislumbrar formas de reutilizar insumos tão importantes quanto valiosos para a natureza, como a água.

“Em vez de trabalhar somente a ideia de vender um tênis sustentável, é preciso pensar numa linha de produção que gere escala, produzindo mais produtos com menor impacto para o planeta”, afirma Allan Abreu, especialista em sustentabilidade do grupo Reserva.

Outro ponto importante diz respeito a já desenvolver produtos pensando em como será o pós-consumo, o descarte.

 

Allan Abreu

Especialista em sustentabilidade do grupo Reserva

“Em vez de trabalhar somente a ideia de vender um tênis sustentável, é preciso pensar numa linha de produção que gere escala, produzindo mais produtos com menor impacto para o planeta”, afirma Allan Abreu, especialista em sustentabilidade do grupo Reserva.

Outro ponto importante diz respeito a já desenvolver produtos pensando em como será o pós-consumo, o descarte.

 

Allan Abreu

Especialista em sustentabilidade do grupo Reserva

O que vem por aí?

 

Como o ESG, no fim das contas, trata de reputação, todo tipo de ferramenta tecnológica que gere confiabilidade para a cadeia pode ter efeitos positivos e gerar impactos.

“Os investimentos em logística, em algoritmo de identificação, reconhecimento e rastreabilidade da jornada do consumidor de moda vão ficar cada vez mais poderosos. Estamos vendo apenas o começo desse movimento”, diz Carlos Coutinho, sócio da PwC Brasil.

 

Carlos Coutinho

Sócio da PwC Brasil

“Os investimentos em logística, em algoritmo de identificação, reconhecimento e rastreabilidade da jornada do consumidor de moda vão ficar cada vez mais poderosos. Estamos vendo apenas o começo desse movimento”, diz Carlos Coutinho, sócio da PwC Brasil.

 

Carlos Coutinho

Sócio da PwC Brasil

Dados o tamanho dos desafios, a quantidade de pessoas, empresas e processos envolvidos no segmento de moda, analistas trabalham com ao menos duas certezas: a jornada do setor rumo à aplicação do padrão ESG está apenas no início e, sem dúvidas, essa caminhada terá como efeitos profundas mudanças em toda a cadeia.

 

É certo também que o fast fashion, um dos elos mais visíveis do setor, já está sendo transformado.

 

Todo esse mercado e seus fornecedores terão outra cara no futuro”, afirma Anselmo Bonservizzi, líder de ESG e Risk Advisory da Deloitte.

 

“O ESG é uma estratégia de negócios. Demanda tempo. As empresas estão fazendo mudanças e agregando melhores práticas e produtos. O consumidor, por sua vez, também ficará cada vez mais exigente. A pergunta que fica é: como equilibrar tudo isso com o custo? Até quanto o cliente estará disposto a pagar a mais por isso?”, questiona.

NÚMEROS

 Fonte: JGP, em mapeamento sobre o setor de Moda e Vestuário

3%

3%

É quanto o setor representa do PIB global

8%

8%

Das emissões globais de poluentes são geradas pela indústria da moda
300 MI

300 MI

É o número total de trabalhadores envolvidos no setor, em todo o mundo
92 MI Toneladas

92 MI Toneladas

É o volume de resíduos descartadas pelo setor, todos os anos
5%

5%

Dos resíduos sólidos descartados anualmente, em todo mundo, são gerados pela indústria da moda
80%

80%

As mulheres são maioria na força de trabalho

Texto: Luciano Feltrin

Design: Rodrigo Hamam 

Editor-chefe: Arnaldo Comin

Publisher: Ricardo Natale

Imagens: StockPhotos 

Patrocínio: Ambipar