Desde quando a temática ESG invadiu de vez a agenda do alto comando das organizações e passou a fazer parte das decisões de negócio, uma palavra assombra a rotina de seus executivos – greenwashing.

 

Num momento em que boas práticas ambientais, sociais e de governança corporativa são valorizadas e vistas como uma nova – e correta -, forma de atuar na era do capitalismo de stakeholders, a possibilidade de que as corporações usem ESG apenas para turbinar divulgações positivas e fazer marketing entrou de vez no radar de analistas, investidores e outros participantes do mercado de capitais.

 

Para eles, greenwashing é percebido não como um efeito colateral aceitável em meio a um complexo processo de transformação, mas como algo que deve ser combatido com todas as forças.

 

Até para que a sigla não seja vista como uma onda, modinha ou um movimento corporativo passageiro.

Especialistas ouvidos pelo Experience Club concordam em pelo menos um ponto quando o tema é o combate ao greenwashing.

 

O diagnóstico vai na linha de que o comprometimento dos altos executivos – sobretudo o CEO, o CFO e o conselho de administração -, na construção de processos robustos e diretrizes claras de governança é essencial, e serve para separar ações efetivas de mera propaganda.

 

“A governança é o pilar do ESG. Quando o G funciona bem o E e o S são incorporados naturalmente”, afirma Pedro Melo, diretor geral do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).

 

“O princípio, no sentido de começo, do ESG deve ser a governança. É daí que vem o propósito, as estratégias, as decisões e a escolha de quem vai dar os rumos. Ela é a linha mestra, que vai nortear toda a ação da companhia em relação às duas outras pontas do tripé. É a partir daí que a companhia decide se vai praticar ESG para valer ou se só para inglês ver, o que leva a empresa para o lado do greenwashing”, diz Luiz Martha, gerente de pesquisa, conteúdo e comissões do IBGC.

Mostrar serviço

 

Com o acrônimo ESG sob forte exposição, aparecendo na mídia dia sim, dia também, as empresas, em especial as de capital aberto, se sentem na obrigação de mostrar serviço e trazer à tona respostas à sociedade. Algumas delas, de fato, se mostram concretas. Outras, porém, ficam devendo. Viram greenwashing.

 

“A razão pela qual isso está acontecendo parece ser justamente porque há muitos holofotes sobre o tema. As empresas que olham para seu próprio umbigo e veem que é complicado e demorado para fazer mudanças agudas preferem fazer alterações cosméticas ou dizer que fazem algo. O greenwashing não é, na verdade, uma mentira. É uma distorção, uma ilusão. É  fazer algo, em alguns casos, de fato, mas sem relevância. Com o tempo, isso vai ficar cada vez mais explícito”, diz Fabio Alperowitch, sócio da Fama Investimentos.  

Alperowitch, inclusive, não coloca tudo no mesmo balaio. Para ele, as empresas estão em estágios diferentes. Generalizar seria perigoso. Algumas têm governança bem madura; outras, estão bem cruas em sua jornada.

“Há greenwashing praticado de forma intencional, mas existe também o feito de forma involuntária”, pondera.

 

Fabio Alperowitch

Sócio da Fama Investimentos

Alperowitch, inclusive, não coloca tudo no mesmo balaio. Para ele, as empresas estão em estágios diferentes. Generalizar seria perigoso. Algumas têm governança bem madura; outras, estão bem cruas em sua jornada.

“Há greenwashing praticado de forma intencional, mas existe também o feito de forma involuntária”, pondera.

 

Fabio Alperowitch

Sócio da Fama Investimentos

Impacto no valor de mercado

 

Nelmara Arbex, sócia líder de ESG da KPMG, acredita que, daqui em diante, o valor de mercado das companhias com ações negociadas em Bolsa espelhará, cada vez mais, a qualidade das práticas ESG. 

“Nós estamos na era da reputação. Uma grande porcentagem do valor das empresas corresponde ao capital reputacional, intangível. Ter seu nome associado à ideia de que faz uma coisa, mas não consegue mostrar evidências disso, significará impacto direto para as empresas. É importante que as organizações contem suas histórias, indiquem os avanços que fazem, falem das metas ousadas que têm para ESG. Mas também é fundamental que quem for responsável por comunicar isso tenha processos para ter certeza de que está baseado em fatos, dados e se sustenta”, afirma.

 

Nelmara Arbex

Sócia líder de ESG da KPMG

“Nós estamos na era da reputação. Uma grande porcentagem do valor das empresas corresponde ao capital reputacional, intangível. Ter seu nome associado à ideia de que faz uma coisa, mas não consegue mostrar evidências disso, significará impacto direto para as empresas. É importante que as organizações contem suas histórias, indiquem os avanços que fazem, falem das metas ousadas que têm para ESG. Mas também é fundamental que quem for responsável por comunicar isso tenha processos para ter certeza de que está baseado em fatos, dados e se sustenta”, afirma.

 

Nelmara Arbex

Sócia líder de ESG da KPMG

Ter ferramentas capazes de mensurar o que a companhia faz nas três dimensões do ESG também é relevante do ponto de vista da regulação. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), por exemplo, encerrou recentemente uma consulta pública ao mercado para estabelecer parâmetros de divulgação para ampliar a transparência das informações prestadas aos investidores.

“O objetivo é incorporar questões que antes eram tratadas de forma mais genérica, como ambientais e sociais, com mais detalhamento. Além disso, é dar também mais clareza e disclosure especificamente às questões climáticas”, afirma Alexei Bonamin, head da área de mercado de captais do escritório de advocacia TozziniFreire.

O especialista acredita, entretanto, que, mais importante do que a regulação separar o joio do trigo é a alta cúpula das companhias não entrar na fácil armadilha de divulgar informações sem critério, só porque são consideradas “do bem”.

 

Alexei Bonamin

Head de mercado de captais da TozziniFreire

“O objetivo é incorporar questões que antes eram tratadas de forma mais genérica, como ambientais e sociais, com mais detalhamento. Além disso, é dar também mais clareza e disclosure especificamente às questões climáticas”, afirma Alexei Bonamin, head da área de mercado de captais do escritório de advocacia TozziniFreire.

O especialista acredita, entretanto, que, mais importante do que a regulação separar o joio do trigo é a alta cúpula das companhias não entrar na fácil armadilha de divulgar informações sem critério, só porque são consideradas “do bem”.

 

Alexei Bonamin

Head de mercado de captais da TozziniFreire

M&A

 

A maior atenção com o modelo ESG e a caça ao greenwashing em empresas que são candidatas a serem adquiridas também passaram a fazer parte do trabalho de profissionais que atuam com fusões e aquisições.

 

Pelo lado de gestoras que adquirem fatias relevantes de companhias promissoras, um dos trabalhos de formiguinha da vez é mapear a governança tendo esse foco.

“Há, em muitos casos, um pouco de ingenuidade por parte de alguns empreendedores. Não é porque ele oferece salários competitivos no mercado para seus colaboradores que a empresa já está fazendo o suficiente para a missão S do ESG. Pode até começar por aí, mas é preciso muito mais. O que falta, nesses casos, é profissionalizar a empresa, incorporando ferramentas para mensurar os impactos gerados e o que falta”, afirma Taíza Roso, Operating Partner da X8 Investimentos.

 

Taíza Roso

Operating Partner da X8 Investimentos

“Há, em muitos casos, um pouco de ingenuidade por parte de alguns empreendedores. Não é porque ele oferece salários competitivos no mercado para seus colaboradores que a empresa já está fazendo o suficiente para a missão S do ESG. Pode até começar por aí, mas é preciso muito mais. O que falta, nesses casos, é profissionalizar a empresa, incorporando ferramentas para mensurar os impactos gerados e o que falta”, afirma Taíza Roso, Operating Partner da X8 Investimentos.

 

Taíza Roso

Operating Partner da X8 Investimentos

Ainda do ponto de vista de fusões e aquisições, Levindo Santos, sócio sênior da G5 Partners, nota dois movimentos paralelos acontecendo nos negócios, ambos relacionados às questões ESG.

 

“Primeiro há empresas que estão adquirindo outras que possam mitigar ou trazer soluções contra problemas sociais, ambientais e de governança, o que pode ser bom para acelerar processos”, avalia.

 

“Mas também já participamos de operações que não se concretizaram e foram inviabilizadas, pois a companhia que seria adquirida carregava um passivo relevante e um histórico com cadeia de fornecedores que sugeria trabalho análogo à escravidão”, conta.

Tentativa, erro…e acerto

 

Segundo especialistas, um erro muito comum entre empresas acontece quando, ao buscar protagonismo em determinados temas, a companhia divulga uma ação que, mais à frente, se mostrará datada, pontual ou mesmo mais barulhenta do que propriamente efetiva para resolver alguma demanda da sociedade. É aí que surge o greenwashing.

 

“Em geral, acontece quando a organização se envolve nas grandes causas. Como não há empresa perfeita, ainda assim, é melhor errar mantendo a causa do que a abandonando”, diz  Francine Lemos, diretora do Sistema B no Brasil.

Como forma de reforçar o conselho, ela lembra que, para conseguir a certificação como empresa B, uma companhia tem de obter ao menos 80 de um total de 200 pontos. “Nenhuma empresa do mundo superou os 180”, afirma.

Fabio Alperowitch, da Fama, aponta a coerência como arma mortal no combate e, por outro lado, o oportunismo como um convite para mergulhar no greenwashing. Questão de escolher de que lado se quer estar.

 

Fabio Alperowitch

Sócio da Fama Investimentos

Como forma de reforçar o conselho, ela lembra que, para conseguir a certificação como empresa B, uma companhia tem de obter ao menos 80 de um total de 200 pontos. “Nenhuma empresa do mundo superou os 180”, afirma.

Fabio Alperowitch, da Fama, aponta a coerência como arma mortal no combate e, por outro lado, o oportunismo como um convite para mergulhar no greenwashing. Questão de escolher de que lado se quer estar.

 

Fabio Alperowitch

Sócio da Fama Investimentos

O caminho mais difícil

 

Virou lugar-comum tratar a adoção de práticas ESG como uma jornada. Essa visão é reforçada quando se faz um recorte no problema greenwashing.

 

A trajetória é única. Não há receitas nem fórmulas universais e infalíveis. Cada empresa trilhará seu caminho, com particularidades, desafios e potenciais vantagens competitivas vindo à tona ao longo do processo.

 

Num mundo que cobra do setor privado falas e ações concretas para desafios complexos e diversos, como são a emergência climática e a necessidade de ampliar a diversidade e a inclusão, só há uma certeza: as empresas que quiserem acertar terão um longo caminho pela frente. E, claro, muito trabalho.

Texto: Luciano Feltrin

Design: Rodrigo Hamam 

Editor-chefe: Arnaldo Comin

Publisher: Ricardo Natale

Patrocínio: Ambipar

Imagens: StockPhotos